Sonho Realizado

Queridos, é com uma gratidão e alegria imensos que venho contar procês que um dos meus contos foi selecionado para ser publicado na antologia “Postumus – Relatos Sombrios”, organizada pela autora Juliana Daglio e pela Rouxinol Editora


É a primeira vez que tive algo que escrevi selecionado para ser publicado em um livro e não tenho como descrever o que estou sentindo desde que soube. Por muito tempo (desde os sete anos de idade, que foi quando comecei a tomar gosto por papel e caneta) mantive meus escritos secretos, acreditando que seriam apenas passatempos. E agora, quando a antologia estiver pronta, vou poder dizer que sou, de fato, escritora. Mas não é o titulo que me agrada ou orgulha, é toda a trajetória que me trouxe ate aqui. São as horas inventando personagens e lugares que nunca imaginei que compartilharia com alguém, dias de angústia genuina pensando em como contar historias que so existiam na minha cabeca, sem nem sequer me atrever a sonhar que um dia uma delas estaria em um livro.


O que mais me alegra, porem, é saber que meu conto foi um dos escolhidos em um concurso com muitos outros autores excelentes. Eu sempre pensei que se um dia quisesse publicar meus livros seria de forma independente, custeando a produção total, então ser escolhida para ser publicada – mesmo que só um conto – me deixa literalmente nas nuvens. E se por algum motivo do destino a publicação não acontecer, só ter sido escolhida ja valeu tudo!


Poderia marcar um milhao de pessoas aqui, que fizeram parte desse meu caminho, desse meu sonho. Mas nem marcar todas elas poderia expressar o tamanho da minha gratidão a todos que torceram por mim. Aos que dedicaram algum tempo para ler minhas historias no blog, minha eterna gratidão. Isso alimenta a imaginação fertil a correr atras dos sonhos loucos e produzir algo que preste para entreter mais gente linda como vocês! 


Agora estamos na fase de “negociação” de contrato e acredito que o livro só sai perto do fim do ano. Hoje so vim contar a novidade de ter sido escolhida, agradecer e pedir a torcida de todo mundo! 

Minha história com a escrita

Costumo dizer que eu escrevo desde que me entendo por gente. Aos sete anos de idade avisei minha família que ia escrever um livro e algum tempo depois entreguei um caderno de 48 páginas com um texto que chamei de “Um história incrível”. Era quase uma cópia do roteiro do filme “A história sem fim”, mas com muitos aditivos da minha imaginação infantil. Daquele dia em diante eu soube que jamais poderia deixar de escrever, que a escrita era para mim como respirar. Experimentei muitas plataformas: diários, poemas, cadernetas… Até que o computador me deu a possibilidade de escrever para um publico mais abrangente que meus familiares e professores. Foi quando montei este blog. Tive alguns outros antes, mas o Girafa de Papel foi o único que levei a sério e pretendo manter por muito tempo.

Aqui escrevo textos curtos, pequenos contos ficcionais, onde deixo a mente rolar sem me preocupar com nada. Em 2015 me pus a escrever meu primeiro romance, Pássaro com Olhos de Fogo, e para realizar um bom trabalho nele acabei me afastando dos mini contos. Escrever historias curtas atrapalha o desenrolar de historias longas. Com o Pássaro aprendi muitas lições sobre como é o processo da escrita pra mim. A primeira é que mesmo que todo mundo diga que eu escrevo bem, eu nunca serei tão boa quanto meus autores favoritos. Essa é a lição da humildade. Com ela aprendi que o importante é escrever, todos os dias, sempre mantendo em mente que eu precisarei de muitos e muitos romances escritos para poder ser realmente considerada boa.

Eu escrevi o Pássaro até o final, cheguei a postar quase todos os capítulos aqui, mas depois tirei do ar. Divulguei muito no Facebook, mas um dia percebi que a revisão seria uma reescrita e que o livro sairia tão diferente que o não fazia sentido mantê-lo online. Foi quando descobri o prazer de me dedicar a ele sem o olhar de qualquer leitor. Depois de um grande hiato emocional na escrita – quando fiquei mais de seis meses sem ter nenhum contato com o livro -, me sentei na cozinha de casa e folheei suas páginas impressas em A4. Senti como se visitasse velhos amigos, dos quais eu gostava tanto que eles mereciam uma versão melhor de sua história. Hoje eu trabalho nessa segunda versão, que considero quase como um segundo livro.

Confesso que por muito tempo achei que eu seria uma escritora de livros incompletos. Daqueles que eternamente escrevem a mesma história. Vejo tantos autores no Wattpad, na Amazon, no próprio Facebook, que a cada dois meses lançam um novo romance que por muito tempo pensei em parar de escrever, acreditando que a escrita não servia para mim. Me questionei se eu era perfeccionista demais para aceitar que a primeira versão estava bem escrita, tentei enfiar a forceps na minha cabeça que ‘antes feito que perfeito’, que do jeito que estava já  dava pra enviar pra alguma editora. Foi quando assisti o filme “O mestre dos gênios” que conta a história do grande editor Max Perkins, responsável por autores como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolfe. Saí do filme em catarse. Percebi que eu não sou uma má escritora só por não ser tão prolífica quanto Stephen King, mas que eu sou apenas uma escritora diferente, que gosta muito mais de lapidar a pedra do que de tirá-la da terra.

O Mestre dos Gênios

O trabalho de um escritor, pra mim, é como o de um ‘ourives garimpeiro’. Nós percebemos que em certo terreno da nossa mente existe uma história para ser contada. Vamos lá, e tiramos a historia a machadadas, garimpando. Depois nos sentamos em frente a uma lente de aumento e polimos, lapidamos um pouco. Nessa etapa a jóia – que é a história pronta – já está bem diferente do que tiramos da terra fértil de nossa imaginação. Alguns escritores conseguem preciosidades dessa primeira lapidação. Outros, como eu, preferem lapidar a pedra a ponto de torná-la quase irreconhecível. Esses últimos tem mais gosto em lapidar, os primeiros talvez tenham em descobrir a história e contá-la.

Foi assim, com essa metáfora, que entendi porque eu gosto tanto do trabalho da minha coaching literária, a Adriana. Com ela aprendi que não tem só lapidação. Tem lapidação, polimento, tem muito aparar de arestas. Depois do livro pronto, ele ainda não está pronto, não precisa apenas ser revisado, precisa ser reescrito. Descobri um prazer novo com a leitura, agora sistematizada. Leio romances como O Grande Gatsby pela segunda ou terceira vez e vejo neles sempre uma coisa nova. Leio Zafon pela décima vez e sempre encontro algo que me faz brilhar os olhos e melhorar minha escrita. E foi na reescrita – após muita leitura – que encontrei meu gênio criativo na sua melhor fase.

Esse gênio é algo tão íntimo que não consigo mais expor meu texto à leitura sem que o considere pronto. Minha relação com as personagens, com a história, com a forma de contá-la tornou-se tão íntima que transformou a escrita na minha terapia. Hoje eu vejo que posso escrever depressa, sem nem gozar da escrita nesse momento, apenas garimpando a história na minha imaginação. Sei que terei a reescrita para tomar um chá com os personagens, conhecer suas facetas e personalidades, saborear cada cenário, interagir com a história e contá-la da maneira mais honesta possivel.

Hoje a escrita é também meu ganha pão. Como redatora e social media eu vivo praticamente de escrever de forma estratégica. A escrita ficcional, e o estudo desse estilo literário, é como descobrir dentro de mim mesma mais uma Marina, como num jogo de bonecas russas, onde uma é igual a outra, mas completamente oposta. É onde eu crio, me deleito e me encontro com pessoas que eu gostaria de ter conhecido: meus personagens.

Camille

A garrafa estava em cima da mesa de centro. Uma denúncia dolorosa de um dia difícil. Quatro taças. Quatro taças cheias e ainda se sentia vazio. Uma coloração âmbar invadia a sala, inundava o sofá e perfurava suas pálpebras numa claridade intensa. O hoje havia se tornado amanhã. Um suave calor penetrava pelas roupas, mas o vento do lado de fora da janela parecia paralisar os ossos. Com dificuldade, levantou-se da poltrona. Apoiando os braços nos joelhos, ouviu as articulações rangerem, numa reclamação quase muda. Pegou uns copos, colocou na pia, afofou as almofadas.

Minutos depois, a água morna lambia sua pele firme, acariciava seu rosto e o convidada a carícias íntimas. Encostou-se na parede fria, tocando-se com mais vigor a cada segundo. Camille estava com ele. O corpo ensaboado fugindo de suas mãos. Ela sorria e o beijava com delicadeza. Dentro dele algo borbulhava, como uma chama viva, cheia de inquietação. A pequena barriga protuberante da esposa encaixava-se perfeitamente às suas curvas. Ele a penetrava por trás com intensidade, vislumbrando o arco do sorriso dela no canto da boca. Seus afagos cada vez mais intensos trouxeram o gozo. Mas Camille levara com ela o fogo que trazia sentido.

Vestiu-se com o terno escuro. Faltavam dez minutos para as oito da manhã. Ele caminhou vagarosamente em direção à igreja. A rua arborizada era tomada por um tapete que brincava com as sombras. O vento varrendo as calçadas a seu modo. Pensou em Camille apressada a sua frente, ajeitando o cachecol e segurando a mão da filha. Esqueça! Juntos ele jamais iriam à igreja. Juntos, naquele dia, estariam tomando café da manhã na cozinha, enquanto a filha dormia preguiçosamente no carrinho.

Entrou pela porta imponente. Deus era um cara importante. Bela casa. As fileiras de trás, próximas à entrada estavam vazias e ele pensou que cabia mais gente ali do que havia de habitantes na cidade. Nas fileiras da frente, as pessoas cochichavam, sussurrando seu assombro em um semi-silêncio incomodo. No altar, o ataúde negro jazia o corpo dela. De súbito, ele decidiu não se aproximar. Sentou-se na primeira fileira a direita, a tempo dos joelhos bambearem onde havia apoio. O ventre dela, agora murcho, fora coberto de flores do campo. Mas ele sabia que ela gostava mais de girassóis.

Sentiu alguns toques nos ombros, ouviu ao longe algumas palavras de consolo. Ele estava com ela, ainda, no banho. Alguém segurou seu braço esquerdo, apontado com a cabeça para o caixão a frente. Intuitivamente ele se levantou e viu mais três homens dirigindo-se a ela. Com um sinal repentino, ordenou que se afastassem. Aproximou-se da esposa, tocou-lhe os lábios e o rosto e sentiu uma lágrima aquecer a pele fria dela. Pressionando o canto de sua boca, procurou vislumbrar o sorriso de dias antes. Em vão. Afastando todos que se atreviam a ajudá-lo, violentando seu último momento com ela, colocou a tampa no esquife. Virou-se para a saída, sem menção de carregá-la consigo. Andou decidido entre as fileiras de bancos e desta vez os joelhos não tiveram apoios. Ele não a levaria a lugar algum.