Minha história com a escrita

Costumo dizer que eu escrevo desde que me entendo por gente. Aos sete anos de idade avisei minha família que ia escrever um livro e algum tempo depois entreguei um caderno de 48 páginas com um texto que chamei de “Um história incrível”. Era quase uma cópia do roteiro do filme “A história sem fim”, mas com muitos aditivos da minha imaginação infantil. Daquele dia em diante eu soube que jamais poderia deixar de escrever, que a escrita era para mim como respirar. Experimentei muitas plataformas: diários, poemas, cadernetas… Até que o computador me deu a possibilidade de escrever para um publico mais abrangente que meus familiares e professores. Foi quando montei este blog. Tive alguns outros antes, mas o Girafa de Papel foi o único que levei a sério e pretendo manter por muito tempo.

Aqui escrevo textos curtos, pequenos contos ficcionais, onde deixo a mente rolar sem me preocupar com nada. Em 2015 me pus a escrever meu primeiro romance, Pássaro com Olhos de Fogo, e para realizar um bom trabalho nele acabei me afastando dos mini contos. Escrever historias curtas atrapalha o desenrolar de historias longas. Com o Pássaro aprendi muitas lições sobre como é o processo da escrita pra mim. A primeira é que mesmo que todo mundo diga que eu escrevo bem, eu nunca serei tão boa quanto meus autores favoritos. Essa é a lição da humildade. Com ela aprendi que o importante é escrever, todos os dias, sempre mantendo em mente que eu precisarei de muitos e muitos romances escritos para poder ser realmente considerada boa.

Eu escrevi o Pássaro até o final, cheguei a postar quase todos os capítulos aqui, mas depois tirei do ar. Divulguei muito no Facebook, mas um dia percebi que a revisão seria uma reescrita e que o livro sairia tão diferente que o não fazia sentido mantê-lo online. Foi quando descobri o prazer de me dedicar a ele sem o olhar de qualquer leitor. Depois de um grande hiato emocional na escrita – quando fiquei mais de seis meses sem ter nenhum contato com o livro -, me sentei na cozinha de casa e folheei suas páginas impressas em A4. Senti como se visitasse velhos amigos, dos quais eu gostava tanto que eles mereciam uma versão melhor de sua história. Hoje eu trabalho nessa segunda versão, que considero quase como um segundo livro.

Confesso que por muito tempo achei que eu seria uma escritora de livros incompletos. Daqueles que eternamente escrevem a mesma história. Vejo tantos autores no Wattpad, na Amazon, no próprio Facebook, que a cada dois meses lançam um novo romance que por muito tempo pensei em parar de escrever, acreditando que a escrita não servia para mim. Me questionei se eu era perfeccionista demais para aceitar que a primeira versão estava bem escrita, tentei enfiar a forceps na minha cabeça que ‘antes feito que perfeito’, que do jeito que estava já  dava pra enviar pra alguma editora. Foi quando assisti o filme “O mestre dos gênios” que conta a história do grande editor Max Perkins, responsável por autores como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolfe. Saí do filme em catarse. Percebi que eu não sou uma má escritora só por não ser tão prolífica quanto Stephen King, mas que eu sou apenas uma escritora diferente, que gosta muito mais de lapidar a pedra do que de tirá-la da terra.

O Mestre dos Gênios

O trabalho de um escritor, pra mim, é como o de um ‘ourives garimpeiro’. Nós percebemos que em certo terreno da nossa mente existe uma história para ser contada. Vamos lá, e tiramos a historia a machadadas, garimpando. Depois nos sentamos em frente a uma lente de aumento e polimos, lapidamos um pouco. Nessa etapa a jóia – que é a história pronta – já está bem diferente do que tiramos da terra fértil de nossa imaginação. Alguns escritores conseguem preciosidades dessa primeira lapidação. Outros, como eu, preferem lapidar a pedra a ponto de torná-la quase irreconhecível. Esses últimos tem mais gosto em lapidar, os primeiros talvez tenham em descobrir a história e contá-la.

Foi assim, com essa metáfora, que entendi porque eu gosto tanto do trabalho da minha coaching literária, a Adriana. Com ela aprendi que não tem só lapidação. Tem lapidação, polimento, tem muito aparar de arestas. Depois do livro pronto, ele ainda não está pronto, não precisa apenas ser revisado, precisa ser reescrito. Descobri um prazer novo com a leitura, agora sistematizada. Leio romances como O Grande Gatsby pela segunda ou terceira vez e vejo neles sempre uma coisa nova. Leio Zafon pela décima vez e sempre encontro algo que me faz brilhar os olhos e melhorar minha escrita. E foi na reescrita – após muita leitura – que encontrei meu gênio criativo na sua melhor fase.

Esse gênio é algo tão íntimo que não consigo mais expor meu texto à leitura sem que o considere pronto. Minha relação com as personagens, com a história, com a forma de contá-la tornou-se tão íntima que transformou a escrita na minha terapia. Hoje eu vejo que posso escrever depressa, sem nem gozar da escrita nesse momento, apenas garimpando a história na minha imaginação. Sei que terei a reescrita para tomar um chá com os personagens, conhecer suas facetas e personalidades, saborear cada cenário, interagir com a história e contá-la da maneira mais honesta possivel.

Hoje a escrita é também meu ganha pão. Como redatora e social media eu vivo praticamente de escrever de forma estratégica. A escrita ficcional, e o estudo desse estilo literário, é como descobrir dentro de mim mesma mais uma Marina, como num jogo de bonecas russas, onde uma é igual a outra, mas completamente oposta. É onde eu crio, me deleito e me encontro com pessoas que eu gostaria de ter conhecido: meus personagens.

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