Sobre ser intenso

Intenso no dicionário significa “que se manifesta ou se faz sentir com força, com vigor, com abundância.” Intenso é tudo aquilo que está presente, completamente, plenamente, no aqui e no agora. Há uns meses atrás eu estava reclamando muito que me sentia sozinha. Muitas coisas pra fazer, mudança de casa, de cidade, de trabalho, de vida. Me sentia cansada e só. Um dia, falando sobre isso com uma amiga ela me disse que eu me sentia sozinha, mas que também nunca procurava ninguém, que me isolava. Pensei um pouco e ela estava completamente certa. Eu realmente estava mais reclusa naquele momento da vida. Automaticamente pensei em reverter isso e procurei ser mais presente nas conversas dos grupos de WhatsApp, comecei a convidar mais gente pra sair, comecei a aceitar mais convites para estar com as pessoas. Mas mesmo assim, com um monte de gente a minha volta, eu me sentia sozinha. Numa tarde de chuva, em casa, li um trecho de um dos meus livros favoritos, A Elegância do Ouriço, onde uma das personagens falava sobre a solidão de ser intenso. E me pus a pensar nisso.

Ser intenso é realmente muito solitário, ainda mais em tempos de smartphone e superficialidade. E ai eu percebi porque me sentia só, mesmo acompanhada. Eu não queria estar com as pessoas em um bar, apenas. Eu queria interagir, de verdade, com profundidade, com intensidade. Sempre tem um momento da conversa, numa roda de amigos, onde todos pegam o celular pra checar mensagens e redes sociais. É o momento da minha solidão. É sempre nesse minuto que me distraio de todos ali, porque percebo que ninguém está, de fato, ali. E quando observo outras rodas de amigos vejo o mesmo comportamento. As pessoas não conversam, quase não se falam. Algumas contam piadas, outras riem, outras ficam no celular, outras falam do tempo, tudo over, tudo fake, mas ninguém – ou quase ninguém – está presente, intensamente, na maior parte das ocasiões. Até quando estão assistindo uma banda, um cantor, as pessoas tão preocupadas em filmar e fazer checkin no lugar, se esquecem de, de fato, estar neste lugar. Não estão nem no presente, nem no futuro. Ficam num buraco no tempo, atrapalhando com suas cameras de smartphones as pessoas que so querem apreciar a musica, o artista, a performance.

Quantas vezes você está com seu filho e fica no celular falando com conhecidos nas redes sociais? Quantas vezes sua namorada precisa chamar sua atenção para sair do WhatsApp? Quantas vezes você está tão preocupado em parecer feliz, em falar da sua vida, em tirar uma selfie que nem percebe que está falando sozinho, pois seu interlocutor já perdeu a conversa faz tempo? Quanto vale uma foto da Monalisa (que você acha em qualquer busca simples no google) se você só viu a monalisa pela lente do celular quando esteve no Louvre?

Por isso eu prefiro compromissos de trabalho. Pode me chamar de workaholic. Quando tem trabalho envolvido, as pessoas tem em mente que tempo é dinheiro e ficam focadas na conversa, no tema ou no problema a ser resolvido. Sempre me divirto mais nessas ocasiões pois não sinto um eco de vozes falando sozinhas, mas sim pessoas interagindo, de fato. Presentes no momento tirando o melhor proveito dele.

Claro que eu tenho amigos ótimos! Claro que nem todas as vezes me sinto sozinha na mesa de bar! Mas hoje eu simplesmente me levanto e vou embora se as pessoas estão mais ‘parecendo’ do que vivendo. Ser intenso em tempos de superficialidade é solitário, mas nenhuma solidão é tão doída quanto estar sozinho acompanhado. E eu me abstenho de quem me tira da minha solidão pra me deixar sozinha. Minha solidão eu preencho com livros, com filmes, com programas de TV, até dormindo. Me recuso a preencher com pessoas só pra ter assunto pra postar no Facebook.

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